Mostrar mensagens com a etiqueta Padrón. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Padrón. Mostrar todas as mensagens

9 de agosto de 2013

Cela: o limpo e o sujo

É a mesa de trabalho de Camilo José Cela, tal como estava no dia em que morreu. Assim, desarrumada. 
Seguimos com os olhos cada um dos objectos, como se na ânsia de o restituir à vida.
«O que está a mais é o papel higiénico e a colher», explicou-nos o guia da visita guiada - talvez para colmatar a nossa adivinhada perplexidade - «usa-mo-los para explicar melhor a los niños».Nem perguntei o quê. Adiante, numa das salas estava uma foto do Prémio Nobel, engravatado, a pose solene que o caracterizava, sentado numa sanita.
Eu sei que os grandes também têm destas necessidades primárias, ditas higiénicas. A questão era a evidência literária.

«Don Romualdo, que era muy aparente, murió de un incordio anal, que, según la ciencia, quizás hubiera podido deprendérsele con jabón». Eis um excerto do prólogo à edição que Agosto de 1960 do seu La familia de Pascual Duarte, o seu livro primeiro que a Censura impediu quando o escreveu em 1942, tendo acrescentado, com auto-ironia, umas linhas antes: «los libros que tienen muchas ediciones acaban siempre por ensuiarce».

Fonte da Esclavitud: uma gaivota em terra

Perguntámos pela Fonte Santa, mas é conhecida pela Esclavitud. Em cima dela ergueram uma imponente igreja.
A tradição imputa ao lugar dois acontecimentos milagrosos. Um deles tem a ver directamente com a fonte. Um camponês, labrego como por aqui se chamam, dirigia-se a Santiago e parou para beber. Não precisou seguir o caminho que traçara em busca de remédio para os seus males. Ali mesmo deixou o carro e os bois que o transportavam. Ganhara vida, expulsara a escravidão do Mal.
Parámos para uma fotografia, a da fonte, a da igreja. Talvez tenha uma significativa história. Mas estava encerrada, pelo que ficou apenas o recorte exterior. A surpresa da visita estava, porém para chegar. Sentados num banco de pedra junto ao muro que cerca o lugar, dois velhos. Um deles viu-nos fotografar uma lápida que está aposta na parede frontal do tempo. Marca que o tempo tem corroído, cobrindo-a com líquenes. Mas que ainda conserva a mensagem que transmite, a homenagem aos "caídos" durante a Guerra Civil espanhola. Enumeram-se ali os nomes dos mortos no campo nacionalista.


Assina, José António, Primo de Rivera. «Aquele ali é meu primo!», ouviu-se, a voz vinda do fundo. «Qual?», perguntei, baralhado com o Rivera ser Primo também. «Aquele, Eugénio Bahmonde». «Nome de Franco, repliquei», lembrando que o Caudillo se chamava Francisco Franco Bahmonde, nascido em Ferrol, Galicia também.
Foi o inicio de uma fantástica conversa. Era aquele o lugar do seu nascimento e aonde retornara, já jubilado. Em jovem, procurara trabalho, qualquer trabalho. No porto de Vigo, um navio cargueiro norueguês estava amarrado, à espera de hora. «Ó galego, tens trabalho para mim?» berrou ao que supunha ser um conterrâneo acostado à amurada. «Não sou galego mas italiano, sim precisamos de um marinheiro e de um camareiro». Assim foi, como camareiro e improvisadamente cozinheiro. 
Os olhos azuis brilhavam ao contar as suas andanças, de porto em porto: Xangai, Bangkok, Antuérpia. Conheceu tudo, do Canadá à Rússia, passando pelo Japão. Chegou ao Círculo Polar Ártico, onde o dia e a noite se alternam em eternidades. Um dia o café a ferver queimou-lhe as pernas, por pouco «com o devido respeito pela senhora não chegou às partes».


Marinheiro com um amor em cada porto, mudou a rota da conversa para umas ciclistas que ali cirandavam. «Venham, venham», chamou logo, solícito, o olho gordo, como se da sua escada de portaló. 
«A filha do comandante norueguês que teria por aí uns dezassete anos gostava de mim», confidenciara-nos uns momentos anos. E ele gostava de ser gostado. 
Chamava-se Jesus. Compreendi-o na sua apetência. Também ele, gaivota agora em terra, era filho de Deus. Amar não é pecado.



Padrón: o Magnífico Marquês


Que melhor homenagem, depois de visitar a Fundação Camilo José Cela que colocar os livros que se compraram precisamente em cima do busto que ali, no lugar de Padrón, essa terra que muitos apenas conhecem pelos pimentos - o que não é, diga-se, forma indigna de conhecer, saboreando - celebra este Prémio Nobel da Literatura.
«Um dia fomos visitados por Saramago», explicou-nos o solícito, amável e bem informado bibliotecário, que nos guiou a visita, «e sabe o que mais nos impressionou nele?», perguntou. Sem aguardar resposta revelou: «A simplicidade!».
Percebemos que Camilo José Manuel Juan Ramón Francisco de Jerónimo Cela Trulock, 1º Marquês de Flávia, o homem que entrou no Guiness pela percentagem de homenagens face à obra publicada, meticuloso à exaustão, coleccionador de tudo, tinha mau feitio.E uma magnífica maneira de ser. Como o escultor surpreendeu.