quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Maria Pita


Heroína poular, Mayor Fernández de la Cámara Pita,  mobilizou com o seu gesto tenaz, ao arrancar das mãos de um inglês a bandeira, todos os que lutavam na Coruña contra a invasão britânica. Corria o ano de 1583. Sobre ela existe uma Casa Museu [veja-se aqui]

Hispania Romana


Noticia-se o Simpósio Internacional intitulado Sociedade, Cultura e Economia nas Regiões Serranas da Hispânia Romana, a realizar a 26, 27 e 28 de Setembro de 2013.
Terá lugar na Guarda (dias 26 e 28) e em Linhares da Beira (27). 
Para mais detalhes, ver aqui.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Alborada Gallega

Faz sentido que, ao ouvi-la, ecoem reminiscências celtas. E é lógico que nessas raízes se tenha procurado o fundamento de uma autonomia nacional. Sobretudo face às demais Espanhas.

domingo, 18 de agosto de 2013

Ganhámos!


Ganhámos! Ter ganho um ciclista galego é uma forma de termos ganho. Porque não triunfa a diferença, vence a semelhança.
Prova de esforço heróico, de resistência ao sacrifício, ela ela, como modalidade desportiva popular, é o lugar simbólico destas zonas de necessidade e de emigração, de gentes habituadas à dureza dos caminhos.
Parabéns, pois, Alejandro Marque.


31 anos, natural La Estrada, profissional desde há dez anos, herdou do pai o culto ciclismo.[sobre a notícia ver, no imediato aqui]. 
Um grande atleta como alguém disse com propriedade uma muito boa pessoa. O que conta.

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Fonte das fotos: a primeira, de Maria José Matos, a segunda aqui.

sábado, 17 de agosto de 2013

Rosalía de Castro: a violeta, delicada e resistente

Simbolizada pela violeta, delicada flor e resistente, Rosalia de Castro. Baptizada como Maria Rosalia Rita, filha de pais incógnitos. [ver aqui a Fundação em seu nome].
É a voz poética da Galicia que é, por igual, nome feminino. Uma lírica dos fundamentos amorosos da Nação.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Soutomaior e Santa Maria


Procurei-o ao lugar porque perseguia um nome, personagem central de um livro que traduzira e editara sobre o assalto ao navio Santa Maria: o de Jorge "Soutomaior".
Para a História havia passado, como herói único e mítico chefe, o nome de Henrique Galvão. Ante o que o comandante "Soutomaior" escreveu no seu Yo robé el Santa Maria uma outra versão surgiu, incómoda, provocatória para uns, espantosa para todos.Nunca ninguém a tinha trazido a lume.


O livro teve o destino dos livros entre nós. Uma breve duração em cena e o desaparecimento devorado pela torrente de tanto que se publica até o que ninguém lê.
Está nele, no entanto, muito do que permite compreender a Galiza e Portugal nas contradições com que se debateu a oposição aos regimes de Salazar e Franco. No caso o DRIL essa movimento ingénuo profundamente infiltrado pela Seguridad espanhola.
O assalto ao navio foi acto preparatório do 4 de Fevereiro em Angola. As geopotências que ditaram a sorte do Mundo, os EUA e a URSS ali estiveram cada uma jogando em seu campo.


domingo, 11 de agosto de 2013

Vigo: o Capitão Nemo


Tributo da realidade à ficção, homenagem das gentes de Vigo ao Capitão Nemo e ao seu genial criador Jules Verne [ver aqui]. A estátua foi encomendada pela Associação das Mulheres Empresárias de Pontevedra. A obra pertence ao escultor José Molares. 
Sentado em cima do seu lendário polvo, o autor de As 20 000 Léguas Submarinas [ler o texto integral aqui] ali está, sisudo e misterioso. Um dos capítulos do livro denomina-se A Baía de Vigo. Eis a razão.

Coruña: a porta da Torre


A porta da Torre de Hércules simboliza o tremendo da luta de Hércules com o gigante. No fundo, descontadas as particularidades das lendas, é o eterno símbolo de David contra Golias, o triunfo do pequeno contra o enorme, assim haja coragem de ousar.

sábado, 10 de agosto de 2013

Mia hermana fremosa



Coruña: trabalhos de Hércules


Manhã de acordar mais cedo. Trabalho quase hercúleo visitar a Torre de Hércules na Coruña. No caminho um circunstante tocava a tradicional gaita de foles por umas moedas.
O lugar simboliza várias lendas. Todas de afirmação guerreira. Claro que o que hoje se enxerga é o que surgiu e foi sucessivamente reconstruído, a partir do século dezoito. Na base estava o farol romano.
Olhando para o longínquo horizonte sente-se a presença dos invasores vindos do Norte e a razão do sentimento independentista galego.
Visto dali percebe-se que há um mundo da cultura mediterrânica, que o ideal grego-romano simbolizou e um outro atlântico feito de bruma e longínquo, apto ao sonho e à viagem. Buscando-se, a Galiza construiu, com verdade ou verosimilhança origem celta, ainda que da língua nada tenha ficado que possa consagrar critério.
Nesse mundo estamos nós, os portugueses e por isso, simbólica, esta inscrição preservada:


Trata-se de Caius Sevius Lupus, arquitecto lusitano de Aeminius [hoje Coimbra] tido por fundador da edificação.

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Fonte da segunda imagem: net.

Faro de Fisterra


É, por causa dos seus naufrágios, conhecido como o Cabo da Morte. Em galego diz-se Fisterra, em castelhano Finisterre. Comarca e concelho [ver aqui]
No lugar, onde os romanos encontraram um altar de culto ao Sol,  a vista deslumbrante, eis o farol, e o caminho estreito até ele, incluindo o formigueiro de turistas. Nada que seja incomum. Mesmo até uma "pinchagem" da ETA numa das paredes parece estar devorada pela força natural da paisagem.


A particularidade é naquele local terminar verdadeiramente o caminho de Santiago. Antes da viagem de Colombo supunha-se que ali terminava o Mundo. Depois os Portugueses deram novos mundos ao Mundo.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Cela: o limpo e o sujo

É a mesa de trabalho de Camilo José Cela, tal como estava no dia em que morreu. Assim, desarrumada. 
Seguimos com os olhos cada um dos objectos, como se na ânsia de o restituir à vida.
«O que está a mais é o papel higiénico e a colher», explicou-nos o guia da visita guiada - talvez para colmatar a nossa adivinhada perplexidade - «usa-mo-los para explicar melhor a los niños».Nem perguntei o quê. Adiante, numa das salas estava uma foto do Prémio Nobel, engravatado, a pose solene que o caracterizava, sentado numa sanita.
Eu sei que os grandes também têm destas necessidades primárias, ditas higiénicas. A questão era a evidência literária.

«Don Romualdo, que era muy aparente, murió de un incordio anal, que, según la ciencia, quizás hubiera podido deprendérsele con jabón». Eis um excerto do prólogo à edição que Agosto de 1960 do seu La familia de Pascual Duarte, o seu livro primeiro que a Censura impediu quando o escreveu em 1942, tendo acrescentado, com auto-ironia, umas linhas antes: «los libros que tienen muchas ediciones acaban siempre por ensuiarce».

Fonte da Esclavitud: uma gaivota em terra

Perguntámos pela Fonte Santa, mas é conhecida pela Esclavitud. Em cima dela ergueram uma imponente igreja.
A tradição imputa ao lugar dois acontecimentos milagrosos. Um deles tem a ver directamente com a fonte. Um camponês, labrego como por aqui se chamam, dirigia-se a Santiago e parou para beber. Não precisou seguir o caminho que traçara em busca de remédio para os seus males. Ali mesmo deixou o carro e os bois que o transportavam. Ganhara vida, expulsara a escravidão do Mal.
Parámos para uma fotografia, a da fonte, a da igreja. Talvez tenha uma significativa história. Mas estava encerrada, pelo que ficou apenas o recorte exterior. A surpresa da visita estava, porém para chegar. Sentados num banco de pedra junto ao muro que cerca o lugar, dois velhos. Um deles viu-nos fotografar uma lápida que está aposta na parede frontal do tempo. Marca que o tempo tem corroído, cobrindo-a com líquenes. Mas que ainda conserva a mensagem que transmite, a homenagem aos "caídos" durante a Guerra Civil espanhola. Enumeram-se ali os nomes dos mortos no campo nacionalista.


Assina, José António, Primo de Rivera. «Aquele ali é meu primo!», ouviu-se, a voz vinda do fundo. «Qual?», perguntei, baralhado com o Rivera ser Primo também. «Aquele, Eugénio Bahmonde». «Nome de Franco, repliquei», lembrando que o Caudillo se chamava Francisco Franco Bahmonde, nascido em Ferrol, Galicia também.
Foi o inicio de uma fantástica conversa. Era aquele o lugar do seu nascimento e aonde retornara, já jubilado. Em jovem, procurara trabalho, qualquer trabalho. No porto de Vigo, um navio cargueiro norueguês estava amarrado, à espera de hora. «Ó galego, tens trabalho para mim?» berrou ao que supunha ser um conterrâneo acostado à amurada. «Não sou galego mas italiano, sim precisamos de um marinheiro e de um camareiro». Assim foi, como camareiro e improvisadamente cozinheiro. 
Os olhos azuis brilhavam ao contar as suas andanças, de porto em porto: Xangai, Bangkok, Antuérpia. Conheceu tudo, do Canadá à Rússia, passando pelo Japão. Chegou ao Círculo Polar Ártico, onde o dia e a noite se alternam em eternidades. Um dia o café a ferver queimou-lhe as pernas, por pouco «com o devido respeito pela senhora não chegou às partes».


Marinheiro com um amor em cada porto, mudou a rota da conversa para umas ciclistas que ali cirandavam. «Venham, venham», chamou logo, solícito, o olho gordo, como se da sua escada de portaló. 
«A filha do comandante norueguês que teria por aí uns dezassete anos gostava de mim», confidenciara-nos uns momentos anos. E ele gostava de ser gostado. 
Chamava-se Jesus. Compreendi-o na sua apetência. Também ele, gaivota agora em terra, era filho de Deus. Amar não é pecado.



Padrón: o Magnífico Marquês


Que melhor homenagem, depois de visitar a Fundação Camilo José Cela que colocar os livros que se compraram precisamente em cima do busto que ali, no lugar de Padrón, essa terra que muitos apenas conhecem pelos pimentos - o que não é, diga-se, forma indigna de conhecer, saboreando - celebra este Prémio Nobel da Literatura.
«Um dia fomos visitados por Saramago», explicou-nos o solícito, amável e bem informado bibliotecário, que nos guiou a visita, «e sabe o que mais nos impressionou nele?», perguntou. Sem aguardar resposta revelou: «A simplicidade!».
Percebemos que Camilo José Manuel Juan Ramón Francisco de Jerónimo Cela Trulock, 1º Marquês de Flávia, o homem que entrou no Guiness pela percentagem de homenagens face à obra publicada, meticuloso à exaustão, coleccionador de tudo, tinha mau feitio.E uma magnífica maneira de ser. Como o escultor surpreendeu.

O rufar do coração


Na rua, em Vigo, aproximava-se de nós um som e nós ao seu encontro. A vista encontrou o local. Uma banda de música, uma vasta assistência. O som ocupava a praça em dia quente, irmanando-se no calor humano da assistência. Ao mudar as folhas da pauta percebeu-se que iriam tocar uma zarzuela. Os metais abriram o tom, sussurante a "caixa" rufava o coração.

Este parte...


Terra de emigração, a Galiza deu ao mundo tanta força de trabalho que lhe falta. Também a Portugal. Em oitenta anos quase um milhão de galegos emigrou. 
Trabalhadores esforçados, a aceitar as mais humildes funções, ficou na nossa terminologia o «trabalhar como um galego» o sinónimo de trabalhar que nem escravo [ver aqui], no patamar da vida, onde se sofrem as humilhações e desconsiderações dos que do trabalho emigrado usufruem.
Estive no porto de Vigo onde se presta, pela estatuária, uma homenagem comovida a todos quantos partiram na luta pelo pão. A afastar-se, a modesta mala na mão, ei-lo que parte. As lágrimas dos que ficam são a sua "morrinha". A regra é nunca olhar para trás, para que não se parta o coração.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Castelo de Sobroso: marca de canteiro


É uma de tantas marcas de canteiro, gravada na pedra no castelo de Sobroso. Ao esculpi-la o Homem assinalou a sua ligação à obra, como pintor a assinar um quadro. Com uma diferença: a assinatura aqui é a do anónimo, uma simples pedra encravada entre tanta pedra.
Numa ninguém dirá de quem assim deu presença ao acto isto é a tua obra, apenas, e com isso tanto, dirão: sobre a tua pedra se edificou esta obra!
Parte essencial do todo é o anónimo quase nada.
Eis o mistério da criação! Um Deus que se anulasse na Criatura, deixando nela apenas o imperceptível símbolo, não seria diferente.

Mondariz: uma água que faz bem à vida



Hoje o telhado que a cobre está envelhecido e esburacado, o ferro forjado que guarnece as escada de acesso ao bebedouro e ao varandim acusa os efeitos usurários do tempo, já incerto na solidez. A água essa é gratuita. 
Parámos e, curiosos, ali se foi bebê-la, à Fonte de Troncoso, sem saber do seu sabor sulfuroso, o do enxofre das entranhas da Terra, o dos locais infernais.
No topo do monte, uns quilómetros acima, a água ganhava foros palacianos, com imponentes hotéis, recortes ajardinados à francesa, de uma monumentalidade tranquila..
Quer a lenda que o casamento de D. Dinis com D. Isabel de Aragão teve lugar numa capela no município. 
A noiva estava prometida desde os onze anos, o casamento ocorreu tendo ela dezassete. Ademais, procurando raízes para o veio, embora se imaginem romanos a seguirem aquela pista aquosa, lê-se que a fonte só foi descoberta pelo século dezanove. Incerto jorrar, portanto.
No Verão de 2010 o jornal Faro de Vigo dava conta [ver aqui] que o balneário de Troncoso sofria de graves problemas de estrutura pelo que era um risco para quem o visitasse. Pois foi o que sucedeu, a grade do pequeno portão estava aberta. «A que faz bem esta água?», perguntei, forasteiro inquisitivo. «Faz bem a tudo, faz bem à vida!» disse, convidativa, uma local que enchia garrafões na subsistente bica. 
Lido agora o que se escreveu no jornal concluo, ruminante, com a boca ainda com hálito infernal: «faz bem à vida e também à morte, assim, vá isto tudo por água abaixo...»

Ponteares: rito de fecundação


Lugar de Ponteareas, em Pontevedra. Para se chegar lá há que fazer, como fazemos, viagem pelo interior, em estradas locais. Ao passeante apressado tudo passa ao lado.
O sítio, megalítico, é hoje dedicado aos namorados. Desde a sua origem ele traduz, porém, na sua imponente ostensividade fálica, o lugar do culto da fecundidade. Mulheres ansiosas de se cumprirem pela gestação ali materializavam pela comunhão dos seus corpos com a rocha dura, o ritual do acasalamento.
Simbólica da contemporaneidade: no local um português, de mala lancheira ainda aberta, terminada a refeição, falava ao telemóvel. Dedicava-se à construção civil nesta terra de celtas edificadores que arrancam das pedras a própria vida. 

Soutomaior: Baptismos antecipados


Ponte medieval no lugar de Soutomaior. Ali ocorriam os Baptismos antecipados. Quando em dúvida quanto à subsistência de gravidez por perigo de endemoinhamento, a mulher, o pai da criança, demais familiares e amigos dirigiam-se para a ponte. Munidos iam do que comer e beber. A hora, de preferência, a meia-noite ou o meio-dia. O primeiro passante, que não fosse cão ou gato, seria o padrinho. Qualquer daqueles animais era tido pela encarnação do Demónio. O Baptismo fazia-se pelo vazamento de água e sal no seio e no ventre da mulher e pelas sacramentais palavras "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". Omitia-se o "Amén", pois esta expressão ser reservada ao sacramento regular, a ministrar na Igreja no momento próprio..
Praticado o acto havia festim com o alimento que transportavam.
O culto congrega a doutrina da atracção do Maligno pelas pontes - lugar de passagem para o outro lado  ou seja entre a vida e a morte - a da sua encarnação naqueles - e outros - animais, e bem assim a da ministração daquele sacramento inicial por qualquer baptizado in articulo mortis.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Apresentação


Em rigor a politica fez de Portugal um Estado e da Galicia uma comunidade autónoma do Estado espanhol. A língua provém de um tronco comum. E tantos costumes. 
Iniciei este blog porque estou a fazer uma viagem minuciosa. Uma primeira viagem. 
Fica aqui o caderno de apontamentos.